
Fogueira de São João, na noite do 23 de junho. Photo: Stine Avnbøl, VisitCopenhagen via Flickr
Ontem, ao levar minha filha à escola, resolvi esperar para assistir a primeira atividade escolar do dia dela: o encontro matutino (tradução livre de “morgensamling”). Esse encontro acontece todos os dias antes da aula e reúne os alunos das séries iniciais no pátio interno da escola para cantar, ouvir uma história contada por um dos professores, cantar parabéns para um aniversariante ou receber informações da direção.
Me escondi atrás de uma coluna para que minha presença não distraísse minha filha e fiquei ali assistindo aquele encontro. Através dele acho que cheguei um pouco mais perto de compreender como se forma a consciência coletiva que faz com que os nascidos e criados aqui se considerem dinamarqueses.
Os calouros da classe 0 eram os únicos que não conseguiram acompanhar as crianças da 1a. à 3a. série, que cantaram juntos uma canção infantil em coro regido por uma professora ajudada por um professor ao piano. A cantiga infantil tratava da mudança das estações, dos ventos do norte e do sul que castigam o país durante quase todo o ano, das noites claras de verão e de tradições festivas como o São João e o Natal. Eu que não sou dinamarquesa fiquei emocionada e percebi que alguns pais ao meu lado que também tinham ficado para assistir o encontro, talvez relembrando sua própria infância, engrossaram o coro com lágrimas nos olhos.
Muitas escolas na Dinamarca insistem em manter esses encontros matinais por acreditar que eles ajudam a construir um sentimento de coletividade e camaradagem entre os alunos. Acho que, mais do que isso, esses encontros são também importantes para que essas crianças assimilem o sentimento de fazer parte de uma coletividade, que é o que vai acabar transformando-as em cidadãos dinamarqueses.
É esse espírito de coletividade que, na minha opinião, está sob ameaça com as transformações que vejo ocorrer na escola pública dinamarquesa. Antes um bastião da igualdade de oportunidade para todos, a escola pública na Dinamarca está agora se tornando um símbolo dos problemas sociais do país. Nos últimos anos tem havido uma segmentação crescente da escolas públicas entre as que gozam de boa reputação e são mais procuradas pelos pais, e as de má reputação, que os pais com mais recursos evitam. Em muitas das escolas com má reputação, a maior parte dos alunos são filhos de imigrantes.
Os estudantes de escolas onde a maioria das crianças têm outra língua materna que a dinamarquesa têm desempenho escolar mais fraco do que os estudantes de escolas onde a maioria das crianças têm o dinamarquês como língua materna. A situação se complica porque os pais com mais recursos, que geralmente são os etnicamente dinamarqueses, tiram seus filhos das escolas consideradas ruins, o que acaba aumentando a concentração de crianças descendentes de imigrantes nessas escolas. Se cria então um círculo vicioso: com menos colegas que têm o dinamarquês como língua materna, as crianças dessas escolas têm menos chances de melhorar seu dinamarquês, o que termina por prejudicar seu desempenho escolar.
Felizmente, na escola da minha filha, há uma diversidade que, creio, reflete bem a composição étnica do bairro ao qual a escola pertence. É uma diversidade que espelha inevitavelmente o futuro da Dinamarca: um país com face multicolorida.

Publicado em 19/08/2011
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