
Crianças da primeira séria dão boas vindas aos novos alunos da Escola Utterslev, em Copenhague. Foto: Utterslev Skole
Mês de agosto, último mês do verão na Dinamarca, é também o mês das voltas às aulas nas escolas de todo o país. Para minha filha, foi o início da vida escolar. Antes de ontem ela teve seu primeiro dia de aula na chamada série 0 (0. klasse) e os pais, orgulhosos e inevitavelmente emocionados, foram convidados para acompanhá-la durante as primeiras horas dela na vida escolar.
Na entrada do ginásio onde todos os alunos que começam na Escola Utterslev este ano foram reunidos, alunos do primeiro ano davam as boas vindas aos “calouros” agitando bandeirinhas de papel. Dentro, crianças da segunda série cantaram para os novos colegas. Em seguida, o diretor da escola chamou individualmente os nomes das 75 crianças que foram divididas em três grupos com 25 alunos cada: Leão, Girafa e Elefante. As crianças começarão suas atividades escolares nesses três grupos e daqui a dois meses serão novamente reagrupadas em três classes definitivas nas quais deverão continuar estudando até a nona série.
Foi interessante perceber a importância que os pais deram ao evento. Muitos passaram a manhã inteira na escola, inicialmente com os filhos e depois numa reunião com a direção da escola. Estou convencida de que o envolvimento dos pais é uma das razões para que a Escola Utterslev seja reconhecida como uma das boas escolas públicas de Copenhague. Da minha conversa com amigos que trabalham ou têm filhos em outras escolas públicas da cidade, sei que a participação dos pais é decisiva no sucesso das escolas que oferecem ensino de qualidade.
Conseguir vaga nas melhores escolas públicas nem sempre é fácil como se poderia imaginar. Tivemos a sorte de viver num bairro que pertence ao distrito da Escola Utterslev e a vaga da nossa filha foi automaticamente garantida. Mas se pertencêssemos a um distrito de uma escola sem bom renome, teríamos de tentar vaga numa outra escola de um distrito próximo ou procurar uma escola particular.
Na busca de ensino de qualidade para seus filhos, muitos pais estão recorrendo ao setor privado. Um dos resultados é que no ano passado 85,8 por cento das crianças dinamarquesas estavam matriculadas em escolas públicas, enquanto em 1970 a percentagem era de 94 por cento, segundo as jornalista Ida Strand e Carolina Kamil, em artigo para o jornal Politiken (13.08.2011) .
O ensino fundamental será um dos grandes temas de discussão da campanha para as eleições do novo parlamento dinamarquês, cuja data ainda precisar ser definida pelo primeiro ministro Lars Løkke Rasmussen mas que, pela lei, têm de acontecer até novembro. Um dos motivos para a discussão está, entre outros fatores, no desempenho relativamente fraco da Dinamarca no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Quando comparada aos outros países nórdicos, a Dinamarca é o país que tem o pior desempenho na análise.
Nos últimos dez anos, o governo formado pelos partidos Konservative (conservadores) e Venstre (liberais) mudou 28 vezes a legislação da área de ensino. Muitos críticos dizem que tanta mudança foi muito mais motivada por uma busca quase constrangedora por bons resultados no PISA do que por uma reflexão mais profunda sobre os problemas do ensino fundamental público.
Espero que o novo parlamento consiga legislar acertadamente para garantir ensino de qualidade em todas as escolas públicas do país. Apesar de seus quase 200 anos de existência, a escola pública continua sendo uma das explicações para o sucesso da sociedade dinamarquesa em termos de igualdade de oportunidades e distribuição de renda. Tomara que continue assim.
Carlos
17/08/2011
Parabéns pela sua filhota!
Aqui do Brasil, infelizmente, temos a certeza que o ensino público dinamarques é infinitamente melhor do que o nosso.
Um abraço e boa sorte nesta nova jornada de sua filha!
Margareth Marmori
19/08/2011
Obrigada, Carlos. Ela passou bem pela primeira semana, embora pareca um pouco assustada com tanta novidade. Acabei de publicar mais um posting sobre as escolas daqui, que também têm seus problemas embora eles não cheguem perto dos desafios que o ensino fundamental enfrenta no Brasil. Abração
Márcia Marmori
17/08/2011
Que maravilha essa participação dos pais na vida escolar de seus filhos. Isso é um dos itens que nós, professores, mais lutamos. A participação dos pais aqui no Brasil, é muito baixa junto as escolas públicas. E, ainda temos a nossa velha conhecida corrupção, os desvios de verbas, as más administrações… Que deixam as escolas sucateadas, professores mal pagos e estudantes sem materiais adequados.Temos escolas públicas realmente de qualidade mas, ainda o número é muito pequeno comparado ao número de escolas espalhadas pelo Brasil.
Dá um beijão na Gabi e estou torcendo pra dar tudo certo!!!
Bjs
Margareth Marmori
19/08/2011
Pois é, Márcia. O envolvimento dos pais daqui é mesmo admirável. Deveria ser assim em todo lugar, embora eu deva dizer que, é óbvio, nem todos os pais daqui são tão interessados. Aqui há também pais que entregam seus filhos na escola e acham que assim cumpriram sua obrigação. Acontece também que muitos pais imigrantes, embora bem intencionados, não conseguem dar o apoio que os filhos precisam devido às dificuldades que eles próprios têm com a língua. Bjs