Inverno verde

Publicado em 25/05/2011

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Fælledparken 1

Fælledparken, um dos maiores parques de Copenhague, em maio. Image via Wikipedia

Comentei com uma brasileira que vive já há alguns anos aqui na Dinamarca que estamos vivendo dias de inverno verde e ela, para minha surpresa, não sabia do que eu estava falando. Senti-me então na obrigação de escrever esta nota de esclarecimento público.

Inverno verde é o que estamos vivendo hoje, agora, este exato momento na Dinamarca. Você olha pela janela e está tudo lindo, as árvores verdinhas que são uma beleza, as flores coloridíssimas, tudo parecendo um cartão postal. Você sai para a rua quase saltitante de alegria, calçando sandálias de dedo, mostrando vaidosa as unhas que acabou de pintar de vermelho viúva Porcina para, cinco minutos depois, começar a tremer de frio e praguejar contra este fim de mundo onde o inverno parece não ter fim.

Pois é, você acabou de sentir na pele arrepiada o que significa inverno verde, uma expressão que, me disseram, foi compreensivelmente inventada por imigrantes africanos. Na Dinamarca, me contaram quando cheguei aqui, existem dois invernos: o branco e o verde. O branco, todo mundo sabe, é entre outubro e abril, tem sempre muita neve e as temperaturas ficam sempre abaixo de 10 graus centígrados. O verde é menos comentado. Acontece entre maio e setembro, a vegetação está verdinha que é uma beleza mas a temperatura, que todos rezam para que chegue aos 20-25 graus, não passa dos 5-15 graus.

O calendário diz que estamos na primavera ou verão, mas seu corpo tiritando de frio diz que ainda é inverno. É também a época de não saber o com que roupa sair. O sol brilhando engana maliciosamente e lhe convence a usar sandálias e exibir os dedos que estiveram escondidos por meias durantes meses. O céu azul, traiçoeiro, lhe faz acreditar que dá para usar aquela camiseta sem mangas que estava escondida no fundo da gaveta e da qual você nem se lembrava mais. Você se deixa ludibriar, sai desprotegida e daí a pouco sente raiva de si mesma e se sente uma burra por mais uma vez ter se deixado enganar.

O incrível é que leva anos até você parar de cair nessa armadilha do clima. Provavelmente porque teimamos em acreditar que o inverno verde não existe, que é uma invenção de gente negativa, mal humorada e pessimista.

Mas eu aprendi e agora faço o alerta. Posso até sair calçando sandálias e vestindo camisetinha sem mangas, mas carrego junto uma mochila na qual levo meias e blusas de frio no caso do inverno verde tentar me surpreender. Fica esquisito sair com meia e sandálias? Fica, fica bem esquisito. Mochila é menos elegante do que uma bolsa de ombro menor? É, muito menos elegante. Mas uma coisa muito boa na Dinamarca é que ninguém liga para como os outros estão vestidos e, cá para nós, não há a menor classe em tiritar de frio.

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Publicado em: Dinamarca