Estação para reavivar os sentidos e alegrar a alma

Publicado em 08/05/2011

2


Cerejeira em flor do quintal aqui de casa

Cerejeira em flor do quintal aqui de casa

Sei da impossibilidade de agradar a gregos e troianos, mas minha alma conciliatória me obriga a fazer uma humilde tentativa. Escrevi semanas atrás sobre minha irritação com os incômodos causados pelas condições meteorológicas da Dinamarca, o que provocou reações discordantes aqui no blog e no Facebook. Mas desde então desapareci do blog por que tinha algo inadiável e irresistível para fazer: curtir dias com tempo bom na Dinamarca.

Nas últimas semanas, que aliás incluíram os feriados da Semana Santa, o tempo na Dinamarca tem sido inacreditavelmente agradabilíssimo. O sol brilhou quase todos os dias, uma brisa suave substituiu aquele vento insuportável, e a temperatura durante o dia ficou entre os 15 e 20 graus. Eu até que podia dizer que a temperatura deveria estar cinco graus mais alta para ficar ainda mais agradável, mas nesse post vou me abster de fazer qualquer comentário mal humorado e negativo.

Então, o que fazer na Dinamarca quando o tempo está bom? Inventa-se qualquer coisa para fazer ao ar livre. Assim lá fomos minha filha, meu marido e eu para o jardim e parques assistir a primavera chegando. É quase como esperar pela estreia de um grande espetáculo há muito tempo anunciado. Em vez da poltrona numa grande sala de teatro, você se senta num gramado, que a essa altura já está quase completamente verde, e percebe que por trás daquela paisagem triste e ressequida há um espetáculo deslumbrante e grandioso prestes a começar. Há um clima de suspense que impacienta os organismos saudosos dos cheiros, cores, texturas, sons e sabores da primavera. É tão excitante quanto o anticlímax de um bom romance policial. Em breve tudo vai se revelar e mostrar que por trás daquele mundo que você achava conhecer, existe um outro muito mais alegre e colorido.

Depois que os primeiros brotos das árvores começam a despontar, a chegada da primavera mais parece um filme em câmara lenta. Basta observar, prestar atenção para quase ver os brotos e flores das árvores se revelando e se erguendo dos galhos aparentemente sem vida. No meu quintal, o fenômeno é sincronizado, uma árvore depois da outra: primeiro a cerejeira, depois a ameixeira, aí vêm as macieiras e os pés de groselha. Ao fundo, as flores explodem em amarelos, lilases, azuis, brancos e vermelhos. Nas ruas e parques, as castanheiras, bétulas e faias dominam o cenário, ali e acolá pontilhado com o amarelo dos narcisos.

Nessa época descobrimos o qual variada a cor verde pode ser. São inúmeros os tons de verde, que variam de acordo com a espécie e fase do brotamento da árvore em questão.

É um espetáculo para o qual não preciso comprar ingresso mas para o qual sempre reservo lugar num gramado ou banco de jardim. Um espetáculo que alegra a alma e reaviva os sentidos.

Publicado em: Copenhague, Dinamarca