Flores sem nome

Publicado em 23/11/2010

6


Cosmos flowers
Image via Wikipedia

Levei quase 40 anos e uma mudança de país para descobrir o nome das flores brancas e cores-de-rosa que eu colhia no caminho que me levava à chácara da minha avó materna, a Dona Ozita, lá em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. As flores eram sempre bom motivo para uma parada estratégica no caminho que fazíamos da casa dos meus pais, na Vila Matias, ao final da Vila Dimas, onde ficava a chácara.

Colhíamos um buquê daquelas flores que de longe formavam um pequeno mar branco e cor-de-rosa e saíamos contentes e saltitantes com boa a intenção de adular uma tia que talvez encontrássemos na chácara, ponto de encontro da família da Dona Ozita nos finais de semana. Mas os buquês nunca sobreviviam aos quinze minutos finais da caminhada. Perdiam rapidamente o vigor, os caules desmilinguiam depois de alguns minutos ao sol do cerrado, as flores murchavam teatralmente e os buquês acabavam jogados na beira do caminho de terra vermelha.

Depois de alguns anos morando na Dinamarca, redescobri no jardim da casa de uma vizinha as flores sem nome da minha infância. Foi um reencontro quase emocionante, para mim é claro. Não tive dúvida. Roubei algumas sementes, comprei outras e desde então todos os anos cultivo as flores que aqui precisam ser semeadas a cada primavera. Originárias do México, elas não resistem ao inverno dinamarquês. Na internet descobri que aquelas flores tem o belo nome científico Cosmos bipinnatus. Em dinamarquês o nome popular é curioso: stolt kavaler, que pode ser traduzido como cavaleiro orgulhoso. Em português, popularmente chamada de cosmos, cosméa, cosmo, beijo-de-moça, picão-rosa e cosmos-de-jardim.

Gostei de descobrir os nomes da flor que enfeitava o caminho que nos percorríamos para chegar à chácara da minha avó. Mas mais ainda de relembrar e refazer na memória aquele caminho que cruzava uma área parcialmente coberta por mato e restos de vegetação do cerrado e passava sob as redes de transmissão que levavam energia elétrica ao distante Plano Piloto de Brasília. Era um caminho que, naquela época, lá pelos meus sete, oito anos de idade, me parecia quase interminável. Com a ajuda do Google maps, descubro agora tinha apenas três quilômetros.

Apesar de quilometricamente curto, aquele era uma caminho fantasticamente longo em pequenas descobertas. No começo, ainda na altura da Vila Matias, era hora de sair atrás de tudo que era bicho no matagal que cobria área , com a ajuda do meu primo desbravador, o Reginaldo. Lá, com a chegada das primeiras chuvas, muitas vezes saíamos à cata de formigas tanajuras, coitadas, que deviam se desesperar com a visão daquela tropa de crianças pouco preocupadas em não maltratar os animais. Os mais corajosos entre nós pegavam as formigas e arrancavam-lhes o que acreditávamos fossem as suas bundas, que mais tarde seriam torradas e misturadas com farinha de mandioca. Eu, cheia de asco, nunca quis provar a farofa de tanajura apesar de me garantirem que era uma verdadeira iguaria.

Naquele caminho, de vez em quando avistávamos um tatu e, com frequência, assistíamos ao vôo sinistro de bandos de urubus. Lá do alto, eles pareciam estar à espera da passagem da nossa tropa de muitas meninas e alguns meninos barulhentos. Pelo cheiro de carniça que sempre vinha associado aos vôos urubulinos, a espera devia valer a pena.

Hoje, aquele caminho é cortado por uma linha do metro que liga Samambaia e Taguatinga ao Plano Piloto. Não sobrou nada do cerrado e, imagino que por motivos de seguranca pública, nem do matagal. Nas últimas vezes em que passei por lá, não vi sinal dos picões-rosa nem de tatus ou tanajuras. A terra vermelha ainda está lá, mas agora cortada por calçadas onde taguatinguenses caminham e correm atrás da boa forma física.

Enhanced by Zemanta